Aviso aos navegantes:

"Aqui a casa Ă© ventilada, o coração Ă© quente e as vontades tĂȘm a temperatura exata para os sonhos."
Fique Ă  vontade, leve um pouco de mim, deixe um pouco de vocĂȘ. Comente!

Espelho... espelho meu! Como eu me vejo! 🍎11/11/16


Enjoada 
Embrulha-me o estomago essa modernidade racista e preconceituosa mostrada em fotos sangrentas, que pune apenas porque o sujeito decidiu contrariar o Ăłbvio e escolheu outra forma, e diga-se, individual, amistosa e pacĂ­fica de viver. 
Enjoei dos cĂłdigos de comunicação mais atualizados, com riscos, rabiscos, sinais e expressĂ”es para dizer que estou ok e nada mais me interessa. Fico tentando dizer algo mais, querendo falar de sentimentos, e, por falta de sinais para isso, fico cansada e deixo pra lĂĄ. TambĂ©m nĂŁo consegui concluir a leitura dos modernos tons por pura falta de comoção. 
NinguĂ©m deve estar interessado nisso, mas ainda guardo as cartinhas do primeiro namorado. O caderninho de apontamentos, com algumas folhas em branco, para uma emergĂȘncia afetiva. 
Enjoei das unhas coloridas em tons e enfeites dourados. Do Ășltimo creme milagroso. Do cabelo cor de vinho tinto. Da chapinha, de frisante, longo e meio encaracolado, com e sem coquetel de frutas cĂ­tricas ou exĂłticas. Do salto plataforma, agulha, linha, baixo, deslizante ou emborrachado. Das noites de baladas interminĂĄveis findadas em camas redondas com espelhos no teto, banho de ofurĂŽ e um bye bye sem nĂșmero de telefone. Enjoei de ouvir falar do Ășltimo rei da pista, momo, da moda, da comunicação, do amor ou do futebol. 
Contrario essas escolhas e continuo agarrada ao CD de Rita Lee, cantarolo as cançÔes de Caetano, errando a letra, mas achando fenomenal. Choro com a poesia que foi cantada por Cartola. Ainda curto cinema com olhos marejados, perguntas que flutuam e mocinhos que sĂŁo herĂłis. Envolvo-me na onda da solidariedade de Bono Vox. Gosto do clube da esquina, de ver a banda passar, da lua dos enamorados, das loucas verdades de Raul Seixas. Sou maluca beleza por uma casa no campo, sem trancas e um canteirinho cheio de ervas aromĂĄticas. 
NĂŁo enjoo das pedaladas de bicicleta. De ler GuimarĂŁes Rosa. Escutar Nana Caymmi. Visitar um sebo e encontrar poemas de Pessoa. Cantarolar Mart’nĂĄlia. Escrever cartĂ”es para alguĂ©m distante. Cozinhar a meu modo, sem nenhum tempero pronto ou receitas elaboradas com aqueles troços carĂ­ssimos comprados na Europa e que por sinal nĂŁo tĂȘm gosto de nada comestĂ­vel. 
NĂŁo enjoei das roupas de algodĂŁo. De olhar o fim de tarde. De acordar cedo e tomar cafĂ©, acompanhada. De ir Ă  feira. Cultivar flores. Conservar amizades. Conversar sem pressa. Ouvir conselhos dos mais velhos. Adormecer com barulho de chuva. NĂŁo enjoei das folhas verdes. Do cĂ©u azul. Da noite estrelada. Das pipas no cĂ©u. Dos barquinhos de papel na ĂĄgua. Da fruta madura no pĂ©. NĂŁo enjoei do desejo melancĂłlico de escutar as Ășltimas notĂ­cias de que Ă© possĂ­vel ser feliz. 
Ita Portugal, in: Homens, mulheres, amores

Nenhum comentĂĄrio:

Postar um comentĂĄrio